Cheguei frente à porta do almoxarifado, o quartinho do qual passei momentos de horror.
Coloquei
minha mão na maçaneta, respirei fundo e a girei. De imediato, o cheiro
terrível que senti no meu ‘pesadelo’ ou ‘realidade’ se entranhou pelo
meu nariz me obrigando a tampá-lo com o braço. Acendi a luz e entrei.
Procurava sem saber ao certo o que..procurava algo que pudesse me fazer
entender se foi mesmo sonho ou se vivi mesmo todo aquele terrorismo.
Procurei
entre as estantes onde continha vidros de vários tamanhos e formas.
Procurei na outra estante que havia produtos químicos e me deparei com
um armário no fundo da saleta. Curiosa, fui até ele para ver o que
tinha. Mas antes mesmo que eu pudesse abri-lo, ouvi um cochicho, um
conhecido cochicho; que ressoava baixo pelos cantos da sala. Eu olhei
para trás em tentativa de saber de onde estava vindo. Em vão. Não via
ninguém e o som daquela voz rouca ia só aumentando juntamente com meu
medo. A voz rouca era a que eu ouvia durante o momento que passei nessa
sala. Sai correndo por entre as estantes, trombei com uma delas e vidros
ruíram-se no chão, olhei para trás e vi nos reflexos dos cacos, vulto
de uma pessoa. O desespero tomou conta de mim, me ‘’empurrando’’ para
fora daquela sala. Quando eu saí bati a porta e me sentei ao lado.
Juntei meus joelhos perto de mim e me pus a recuperar o fôlego. Ali,
sozinha naquele corredor, percebi que não era apenas um sonho. Havia
sido real e mais que isso, eu fui sim torturada.
Voltei para a casa
depois de uma manhã longa e difícil na escola. Cheguei em casa e fui
direto para o meu quarto, não quis mais nada a não se ficar sozinha
deitada na minha cama e afugentar todos os pensamentos ruins.
Acabei
adormecendo e aquele pesadelo voltou. Minha vontade era de acordar logo e
sair daquele tormento. Mas o pesadelo só ia se tornando mais real e
mais forte. Novamente aquele homem vinha em minha direção com aquele
olhar de desejo, aquela mão subindo pelo meu corpo e a respiração quente
no meu pescoço. Quando ele se afastou, o homem ‘’sem rosto’’ se tornou
uma imagem embaçada, como se eu estivesse abrindo os olhos e formando a
imagem dele na minha retina. Mas ainda era impossível ver seu rosto,
percebi somente que ele tinha uma barba meio escura, foi o que eu puder
notar. Quando ele estava prestes a me tocar novamente, acordei
assustada, toda suada e com o medo a flor da pele. Sentei na minha cama e
lagrimas escorriam de meus olhos. O que estava acontecendo comigo? Será
que foi mesmo realidade? Tudo parecia tão real...
No outro dia, demorei a acordar para ir á escola. Minha vontade era de ficar na cama e dormir e esquecer tudo.
Cheguei
à escola, fui para minha sala e a primeira coisa que meu professor
pediu foi para que eu fosse novamente até ao almoxarifado buscar as
vidrarias para ele começar a aula. Eu neguei e ele insistiu e mais uma
vez depositou as chaves na minha mão.
Eu fui, segui pelo corredor.
Dessa vez sem música, dessa vez mais sombrio o corredor e dessa vez com
mais medo. Coloquei a chave na fechadura, girei lentamente e abri a
porta. Logo acendi a luz e fui direto à prateleira de vidrarias para
demorar o menos tempo possível naquele lugar. De repente, a porta se
fecha e a luz se apaga e eu corro em direção á porta para tentar abri-la
e sair dali. Em vão, a porta estava trancada e apenas ouço um sussurro
baixo e rouco no meio da escuridão: ‘’Você aqui novamente...dessa vez
está sendo real não é mesmo?’’
Aquelas palavras fizeram minhas pernas
tremerem, minhas mãos suarem e eu gritar de medo. Meu grito se abafou
naquela saleta e eu batia na porta e pedia socorro. Mas nada acontecia e
eu ia sentindo cada vez mais perto os passos e cada vez mais perto
aquela respiração pesada. Logo, senti uma mão segurar meu braço, me
virando bruscamente e me jogando no chão. Arrastei-me para perto de uma
prateleira e comecei a arremessar objetos em direção ao nada na
tentativa de acertar algo ou alguém. O mais improvável aconteceu, um
silêncio reinou no local. Não ouvia nem sussurros e muito menos passos.
Mas antes que eu pudesse levantar-me, senti duas mãos segurando minha
cintura, me puxando para perto de um armário.